Desde o seu surgimento, quando ainda aldeões da era
medieval juntavam-se em épocas comemorativas para divertir-se chutando uma bola
feita a partir de uma bexiga de porco inflada, o futebol e as brigas
generalizadas em torno desse esporte dividiam o mesmo contexto. A partir de
1890, esses conflitos passaram a ser identificados como hooliganismo.
Surgido no século XIII, na Inglaterra, o futebol era um evento que reunia
diferentes famílias de terras vizinhas e comumente se tornava uma maneira
semilegítima de resolver pendências que podiam estar relacionadas com disputas
de terras ou agressões tribais. Os eventos envolvendo o futebol no período
medieval ocorriam em paralelo com datas comemorativas, e era comum o abuso no
consumo de bebida alcoólica, que terminava, na maioria das vezes, com feridos
ou mesmo vítimas fatais. A violência era tolerada, sendo vista como
comportamento natural dos participantes do esporte.
No entanto, a partir do século XIV, o futebol, que havia crescido em
números de praticantes, passou a sofrer tentativas de controle. O esporte
violento, que agora era praticado nas novas cidades que surgiam próximas a
mercados, trazia confusão e terror a compradores e mercadores, o que não era
bom para os negócios. Casos de saques e violência generalizada também não eram
raros e, a partir disso, a violência passou a ser combatida, mas sem muito
sucesso.
Foi apenas no século XVII que o futebol, após uma forte campanha de
educação voltada para crianças que também participavam das violentas partidas,
passou a ser regido por regras e regulamentos pautados pelo “cavalheirismo” e
pelo espírito esportivo. Entretanto, embora “higienizado”, o ambiente do
esporte ainda era permeado por ares de fortes disputas.
Tendo se alastrado por toda Europa entre os séculos XVIII e XIX, o futebol
tornou-se uma paixão continental em que times rivais enfrentavam-se diante de
grandes plateias. A rivalidade entre torcidas estava geralmente associada à
posição social e era tão visível nessa época quanto as divisões de classes. Nos
países nórdicos, como a Suíça, embora o cavalheirismo, inspirado nos ideais
britânicos, fosse o comportamento em voga, a segregação entre a classe
trabalhadora e os mais abastados era clara e berrante em meio às torcidas. As
demonstrações de revolta quando os eventos ocorriam passaram a ser temidas
pelas autoridades, que viam a possibilidade de uma partida de futebol tornar-se
o estopim de uma revolta das massas, mas com outras motivações sociais.
As segregações por classes que ocorriam nas torcidas
anteriormente se instauraram de outra forma a partir de 1960. O ressurgimento
de um sentimento de patriotismo e xenofobia invadiu o meio esportivo do futebol
e suas torcidas. Grupos que se identificavam por sua origem ou ideologia viam
no futebol e na torcida a oportunidade de confrontar diretamente seus rivais
unidos debaixo de uma bandeira e um ideal comum, em busca de um sentimento de
pertencimento, legitimidade ou simples dominância sobre os outros grupos. O
termo “hooligans”, que
havia sido cunhado em 1890, era agora atribuído a esses grupos que se
digladiavam em torno da cultura do futebol europeu.
Foi em 1960 que as torcidas de futebol europeu começaram a demonstrar um
nível de organização que não havia antes. Brasões, bandeiras, slogans, hinos e
cânticos que exaltavam a torcida, e não propriamente o time, surgiram. As
torcidas consideravam-se distintas de tal forma que, mesmo as que torciam pelo
mesmo time, diferenciavam-se e brigavam entre si.
O holiganismo era visto por
seus participantes como um esporte em si mesmo. Hierarquias entre grupos e
torcidas eram formadas de acordo com o sucesso de cada grupo em suas
empreitadas violentas. Ainda hoje os hooligans persistem, mesmo com os enormes
esforços do governo para tentar frear e acabar com os embates. Contudo, a
juventude confusa e perdida da nova classe média que se estabeleceu no decorrer
das últimas décadas ainda vê um ponto de apoio e familiaridade dentro desses
grupos.
Como a Inglaterra trabalhou essa problemática:
Há
trinta anos, a violência dos torcedores ingleses mais inconsequentes,
conhecidos como hooligans, provocou a exclusão das equipes do país das
competições europeias por cinco anos. A razão foi a morte de 39 torcedores da
Juventus, da Itália, em confronto com aficionados do Liverpool, em um jogo da
Copa dos Campeões da Europa, disputado no Estádio de Heysel, em Bruxelas, na
Bélgica, em 1985.
Os
hooligans causavam terror nas ruas e nos campos. Ocupavam as áreas mais
populares dos estádios, os chamados terraces,
e de lá promoviam o caos, com sessões de pancadaria e invasões de gramado. A
então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, tratou de lidar com o
problema à sua maneira: forte repressão policial e isolamento dos hooligans.
Para
conter os arruaceiros, foram instaladas grades pontiagudas, eletrificadas e com
arame farpado no topo. Engaiolados, os torcedores se apinhavam como se
estivessem enjaulados. A situação foi se deteriorando até 1989, quando ocorreu
a maior tragédia. Na semifinal da Copa da Inglaterra, uma massa de torcedores
do Liverpool que tentava chegar ao estádio de Hillsborough, um dos mais
modernos do país à época, foi forçando a entrada pelos portões. A superlotação,
aliada à falta de sinalização, esmagou os torcedores contra a grade que
separava o campo das arquibancadas. Noventa e seis pessoas morreram esmagadas.
As
autoridades britânicas decidiram reagir. O magistrado Peter Murray Taylor foi
encarregado de preparar um relatório sobre a tragédia.
Em seu
relatório final, de janeiro de 1990, Taylor propôs uma transformação radical no
futebol inglês. “O comportamento e a segurança da multidão estão diretamente
relacionados à qualidade das acomodações e instalações”, concluiu. Desde
Hillsborough, trinta estádios foram construídos e centenas foram reformados,
Os terraces,
habitat favorito dos hooligans, foram preenchidos com cadeiras. Os estádios dos
times de primeira e segunda divisões passaram a ter assentos para todos os
espectadores.
Aliada à reforma dos estádios, foi criada uma política
de prevenção da violência. Em vez de tentar conter os baderneiros depois do
início dos confrontos, a polícia passou a identificá-los previamente. Todos os
times ingleses tiveram de instalar em seus estádios sistemas de monitoramento
por câmeras. Com esse aparato, a polícia faz uma varredura virtual à procura de
torcedores brigões. Assim que um hooligan é localizado, é retirado do estádio.
O embate entre policiais e torcida foi substituído pelo trabalho discreto de
inteligência. Há um oficial escalado para estudar o comportamento dos
torcedores de cada clube profissional inglês. Ele informa à polícia a
identidade daqueles potencialmente mais perigosos.
O torcedor que for pego brigando recebe uma FBO e é
obrigado a ficar de três a dez anos afastado dos estádios. Para garantir o
cumprimento da pena, ele tem de ficar em uma delegacia enquanto seu time joga.
Quando a seleção inglesa atua fora do país, o vândalo é obrigado a entregar seu
passaporte cinco dias antes do jogo. Quem desrespeita a regra é preso e
processado

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